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"A morte sentou na minha sala", desabafa a presidente da MK
1.4.2010 • 13:24 • 0 comentários

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Em texto divulgado no site da gravadora, Yvelise lamenta morte de filho e genro em acidente de ultraleve este ano, e desabafa. 

 

Em texto publicado no site da MK, a presidente do grupo MK de Comunicação, Yvelise de Oliveira, fala sobre a morte de seu filho, Benoni Assis Vieira de Oliveira, 45, e de seu genro, Sergio Ribeiro de Menezes, 43 - marido da cantora Marina de Oliveira. Os dois faleceram no dia 6 de fevereiro, com a queda de um ultravele na Lagoa de Jacarepaguá, no terreno do Clube Esportivo de Voo (CEU), na zona oeste do Rio de Janeiro (RJ).

 

Yvelise é casada com o deputado federal Arolde de Oliveira, escritora, e autora do livro Janelas da Memória.

 

Leia:

 

A morte entrou pela porta e sentou na minha sala

 

Dona Morte entrou pela porta da minha casa e se instalou confortavelmente em algum dos meus sofás.

 

"Essa senhora sinistra" começou com o meu jardim.

 

A casa foi feita para o jardim. Toda cercada de flores coloridas, as singelas "Marias sem vergonha" abraçavam tudo como em um buquê. Por dentro da casa e pelo lado de fora junto dos muros o colorido das flores, na rua, aconchegavam a frondosa amendoeira em um abraço carinhoso em frente à casa.

 

Mas as plantas foram morrendo sem motivo e o jardim todo florido foi ficando sem vida e sem cor...

 

Se foi o sol, o calor, muita água, o jardineiro mesmo não sabia dizer... Mas lutei. Comprei terra adubada e centenas de mudas de "Maria sem vergonha", lilases, grama inglesa. Enfim, plantei tudo de novo, mas o jardim nunca mais foi o mesmo. Minhas orquídeas morreram aos montes no orquidário branco que fiz para cuidá-las. Amo plantas.

 

Indo mais fundo, Dona Morte matou minha gata Sara. A porta foi esquecida aberta e ela pulou para a casa da vizinha - morreu na hora. Os cachorros quebraram seu frágil pescocinho.

 

Lamentei por dias sua morte e chorei sentida a sua falta.

 

Mas a gente não sabe o futuro e esperei sempre que tudo fosse melhorar.

 

Sem doença, sem nada, a mãe do meu marido, D. Margarida, morreu. Uma morte serena. Dormiu e não acordou. Sua jornada tinha acabado.

 

Foi uma tristeza grande. O consolo ficou apenas na suavidade com que Dona Morte agiu.

 

Assim que a gente começa a respirar mais aliviado, o consolo vem vindo, porque minha sogra viveu 91 anos, jovial e saudável.

 

Nesse ano que passou nós a vencemos quando meu marido teve um câncer e pensei que iria perdê-lo. Mas a mesma fé que o curou completamente não consegui tirar o medo que veio morar dentro de mim.

 

Logo eu, tão segura, tão confiante, tão cheia de planos, passei a temer o confronto com ela: a "Sinistra Senhora".

 

Depois passei a desconsiderá-la: "Não. Já perdi gente demais, um filho pequeno , minha mãe, meu pai, minha amiga querida. Perdas que fazem parte da vida quando se é jovem."

 

Mas Dona Morte instalou-se. Minha casa grande, branca e bela tornou-se sua morada predileta.

 

Em um sábado de céu azul e o sol brilhando, um dia tipicamente carioca, a família se reuniu para almoçar. Na mesa, sorriso e comida farta, muito papo jogado fora.

 

Benoni, meu filho, tinha agora um novo hobby: voar de ultraleve, um avião monomotor.

 

Todos já tinham voado com ele: meus netos, sua esposa, meu marido e as centenas de amigos que ele, com seu jeito de menino grande e coração doce, conquistava.

 

Nesse sábado, ele me convidou animado: "Vamos, mãe, vamos voar, é lindo. A gente se sente um pássaro". Emocionava a forma como ele descrevia o voo, uma aventura única, um prazer indescritível. Ver o Rio assim, de cima, sua cidade que ele tanto amava.

 

Vou enjoar, respondi, acabei de almoçar. Vou amanhã, eu prometo.

 

Meu genro, um jovem homem amável e tranquilo, nada dado a aventuras perigosas disse: "Eu vou. Vou fotografar todo o Rio, o Cristo. O dia está claro como cristal".

 

Meu genro era um grande fotógrafo, tinha uma visão artística peculiar de luz e sombra.

 

Assim os dois saíram rindo felizes. O Sérgio, meu genro, com sua máquina super Nikon pendendo do pescoço. Alto, magro e sorridente como seu cunhado. Eram muito diferentes, mas tinham em comum a camaradagem.

 

Nesse dia claro e cheio de sol, Dona Morte resolveu dar um golpe fatal.

 

Enquanto o dia ía findando e o sol tornava o céu rosa em tons de púrpura e lilás, meu filho foi aterrizar seu avião, pequeno, leve como um brinquedo mortal.

 

O vento, sim, o vento que ele tanto amava virou o avião. Caíram na lagoa e morreram os dois na mesma hora.

 

Tantos planos, tantos sonhos, tanta juventude assim cortada, desperdiçada.

 

Morto meu filho, os bombeiros o tiraram da lagoa, o coloquei no meu colo. Pareceu dormir. Tão lindo.

 

Um garrote me apertou a alma. Uma dor assim não se limita, não se escreve, não se consegue sabotar.

 

Perplexa, vi que era verdade... Meu filho amado, meu filho morto, em meus braços eu embalei.

 

A dor é muito particular, íntima e, para mim, incurável. Não vou superar, já estou velha, cansada. Vou apenas suportar enquanto der, lutando para preservar a minha fé, manter o meu coração em Cristo, desejando que Deus permita que meu tempo aqui na Terra não seja tão longo.

 

Como não pude te dizer, meu Deus: Ainda não, ainda não. E rogar: Por favor, não o deixe ir agora. Não me lance nessa noite tenebrosa.

 

Yvelise de Oliveira

Fonte: MK/Guia-me


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